Referencia-se através de leituras em obras que retratam a relação humana com a inospitalidade do mundo (natural e social) e do entranhamento complexo que há entre tempo e memória.
VAMOS
Quando ela se foi,
não achei ninguém
para um abraço, e olha:
olhei em volta.
Achei sim, ela
merecia muito além
daquela citação
do Pequeno Príncipe.
Mas a cidade é pequena
e o contumaz orador,
semelhante ao médico,
fez o melhor que pode.
Tanto deixei de dizer,
mas recordo-me
quis e não o fiz
sobre o seu silêncio,
nas sessões,
nos potes de argila,
grandes cântaros
nos cantos comungados,
no quadro branco
da parede aludindo
com riscos seguros
à condição humana.
Aquela coragem
para a perturbadora
travessia do que somos.
...
Seu silêncio.
Com ele sigo.
Ora, dele me desfruto,
Ora, por vezes,
lhe dedico.
Feliz 2013
Sonhei que o fogo gelava.
Sonhei que a neve fervia.
Sonhei que ela corava,
quando me via.
(Chico Buarque)
ELA
Estamos na época da privacidade infeliz.
Todas as fotos, porém, teimam o contrário,
mas solidão verdadeira nada contém,
mesmo porque, não há como registrá-la.
E o tido como importante a corrigir,
pelos regrados insensíveis,
é casa em eterna reforma,
nas cidades jamais prontas.
Por isto a amo, amo até esquecer,
nada a mudar e o mundo vasto e infinito.
Nas noites em que todos se esvaziam,
a sua natureza simples,
vive.
PEDAGOGOS
Breve, chegará o tempo
das perdas do egoísmo tosco
pesarem afiadas sobre as almas.
Desculpas... quantas houve, pois aludiam
arte, pedagogia, boa intenção ou necessidade.
E por medo, expressavam raiva e prazos escassos.
E com ignorância, ensinavam os surdos aos berros.
E no lugar vazio da arrogante estupidez,
restarão surtadas as vergonhas
e o mais frio esquecimento.
das perdas do egoísmo tosco
pesarem afiadas sobre as almas.
Desculpas... quantas houve, pois aludiam
arte, pedagogia, boa intenção ou necessidade.
E por medo, expressavam raiva e prazos escassos.
E com ignorância, ensinavam os surdos aos berros.
E no lugar vazio da arrogante estupidez,
restarão surtadas as vergonhas
e o mais frio esquecimento.
BOCA SUJA
Nessa vida
Muitas vezes
Repare
O palavrão sacana
São mulheres
De boca amarga
E peles flácidas
De tal modo vil
Que se chega fácil
Aos ossos frágeis
Das camas pobres
Dos móveis surrados
LITORÂNEOS
Árvores escondem pássaros
recolhidos.
O ar, a fumaça dos severos
carros.
A terra, a alegria da noite
estrelada.
Amanhã, abraçado na manhã de
chuva,
o coração, o nada esconderá.
Dias são seres imprecisos.
EUROPA
Expanda mãos
Roupas de sua cama
Dunas de setembro
Anel na cor das unhas
Livro a ler e já lido
Force as janelas
Docemente
Inspire o tempo
A beleza a passeio
No mundo carecido
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